O DOENTE REALISTA.
O QUE SOMOS...
Iniciamos ao nascer com graça e a pureza angelical. Aos
poucos vamos desenvolvendo o corpo e a mente. Até uma determinada idade, muito
variável nas pessoas. Crescemos com sonhos e ideais florescente. O que nem
sempre alcançamos.
A doença chega, toma a energia, prostra-se no leito. A
fragilidade muda o corpo, antes esbelto, forte e decidido. Torna-se uma imagem
que permite muita reflexão no sentido vida. Vivemos para alimentar o corpo que
pode um dia não mais aceitar o alimento. Assim sabemos, mas ignoramos para não
pensar.
Sou doente e aceito a doença. Meu corpo saiu de sintonia e
faz algum tempo, mas minha mente está lúcida e laborativa. Certos comandos
perderam e outros estão perdendo. Não vou classificar as características, não
sou médico. Faço esforço para aceitar o inaceitável. A dor convive, ainda é
suportável. Não me preocupo com o fim da doença e nem faço lembrar quando o
corpo nada sentia e tudo era bom. Não lamento mais e nem peço a Deus para parar
a vida. Mas rogo a Deus para não esquecê-lo. Faço o desafio com a vida.
Só lamento a ocupação dos familiares em torno de mim que
certamente irá fazê-los. A minha doença passa a participar da vida cotidiana
daquele mais próximo. É o único legado que fica na lembrança daqueles que
ajudaram na anti morte. Se na ocasião o corpo estiver no frio do hospital não
sentirei tanto o calor familiar, abreviará a vida. Há uma grande diferença em
saber e não saber quando o corpo vale mais que a vida. Mas enquanto a gravidade
não chega, vou passando, vou remando, vou fazendo o que não fazia antes,
distinguido com mais exigência o certo do errado sem a perfeição e procurando
adaptar-se na nova situação.
Álvaro B. Marques
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