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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O DOENTE REALISTA


O DOENTE REALISTA.


O QUE SOMOS...
Iniciamos ao nascer com graça e a pureza angelical. Aos poucos vamos desenvolvendo o corpo e a mente. Até uma determinada idade, muito variável nas pessoas. Crescemos com sonhos e ideais florescente. O que nem sempre alcançamos.
A doença chega, toma a energia, prostra-se no leito. A fragilidade muda o corpo, antes esbelto, forte e decidido. Torna-se uma imagem que permite muita reflexão no sentido vida. Vivemos para alimentar o corpo que pode um dia não mais aceitar o alimento. Assim sabemos, mas ignoramos para não pensar.
Sou doente e aceito a doença. Meu corpo saiu de sintonia e faz algum tempo, mas minha mente está lúcida e laborativa. Certos comandos perderam e outros estão perdendo. Não vou classificar as características, não sou médico. Faço esforço para aceitar o inaceitável. A dor convive, ainda é suportável. Não me preocupo com o fim da doença e nem faço lembrar quando o corpo nada sentia e tudo era bom. Não lamento mais e nem peço a Deus para parar a vida. Mas rogo a Deus para não esquecê-lo. Faço o desafio com a vida.
Só lamento a ocupação dos familiares em torno de mim que certamente irá fazê-los. A minha doença passa a participar da vida cotidiana daquele mais próximo. É o único legado que fica na lembrança daqueles que ajudaram na anti morte. Se na ocasião o corpo estiver no frio do hospital não sentirei tanto o calor familiar, abreviará a vida. Há uma grande diferença em saber e não saber quando o corpo vale mais que a vida. Mas enquanto a gravidade não chega, vou passando, vou remando, vou fazendo o que não fazia antes, distinguido com mais exigência o certo do errado sem a perfeição e procurando adaptar-se na nova situação.


Álvaro B. Marques


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