Minha autobiografia.
Tive uma infância difícil em leitura e memória. Fui
alfabetizado com 6 ou 7 anos. Na época a Escola Pública só aceitava o aluno
já sabendo a cartilha do ABC e eu demorei muito em assimilar o alfabeto, por
ser uma criança medrosa, insegura e extremamente gago. Tinha o complexo de
inferior ao saber. Mas, não era isso a causa certamente foi a pressão e
castigos para aprender as primeiras letras.
Meu pai, homem enérgico e de pouca conversa. Teve a educação
vindo do tempo da “palmatória” e castigo ajoelhado no milho, quando o aluno era
relapso. Fez um quadro negro para qualquer pessoa ensinar-me o alfabeto até
ele, quando tinha tempo. A mãe, sempre nos labores da cozinha, lavagem de roupas
e limpeza da casa grande com quintal, não tinha tempo para isso, e com mais
cinco filhos. Meus irmãos de mais idade tinham suas tarefas, mas sempre quando
fossem chamados para esta finalidade, faziam arrelia. Eu não gostava e saía
briga. Cabia a meu pai o direito reservado para mim com muita “porrada” e puxão
de orelhas, quando eu via as letras do alfabeto no quadro negro a gagueira
aumentava e fazia um bloqueio, não pronunciava as letras com exatidão. A
cartilha era a minha companheira e assim aprendi a ler o alfabeto do nosso
português arrastado em parada súbida. Ingressei na Escola Pública e conclui o
primário relativo a cinco anos. Neste período eu tive muitos apelidos, “capanga
podre”, “gaguinho”, “rádio quebrado”, “caveirinha” e outros. Já adolescente na
fase dos 14 a 16 anos fui trabalhar. Aconselhado por pessoas outras não sendo
da família, fui vender livros ambulante para forçar as palavras em
pronunciamentos corretos e assim fui melhorando e corrigindo a gagueira. Só
falava o principal e o preço final. Foi o bastante para conseguir novas
oportunidades de trabalho e a vida caminhando. Fui aprender a datilografia na
Associação Comercial da Bahia, na rua Chile. Conclui o curso e não obtive o
Diploma por não ter o dinheiro para pagar. Neste mesmo período estudei quadro anos de ginasial no Instituto Normal
Isaías Alves. Lá encontrei grandes mestres e fatos que até hoje não esqueço.
Quando a professora Candolina entrava na sala de aula, todos os alunos
levantavam-se e diziam, Bom Dia!. Mais adiante, voltei a estudar quando
ocorreram os chamados “artigos 99 e o artigo 101”. Na conclusão do “artigo
101”. Era o científico ou clássico em 6
meses ou 1 ano. Ensino deficitário e de péssima qualidade. Tudo para diminuir o
numero de analfabeto no Brasil.
Meus pais eram pobres e o melhor para eles na época era os
filhos fossem trabalhar para se manter e estudar por conta própria. O sonho da
faculdade foi se distanciando. O trabalho absorvia o maior tempo. Na época da
infância para a adolescência foi quando tive o gosto para a leitura de gibis a
livros de Monteiro Lobato e outros de História de Pedro Malazarte. Como também,
passava os olhos em jornais e revistas, quando encontrava. Tive um amigo,
chamado Bené, estudante de Direito, morava no apartamento com os pais que
tinham uma biblioteca com centenas de livros catalogados em ordem alfabética
com rigor. Eu sempre quando possível lá estava folheando os livros romances,
crônicas, Histórias, Ciência, Matemáticas e muitos de Direito, o pai dele era
também advogado, sentia-me no deleito com as leituras. Foi dessa forma que nasceu
o interesse de escrever o meu pensar. Uma das primeiras escritas foi em 1966
“Canto Só” poema isolado. Depois vieram vários trabalhos com temas diversos ao
passar dos anos. Apesar de ser medroso, inseguro e gago, carregava o estigma da
cor que não ajudava a abrir novos horizontes. Mas não me preocupava com isso.
Não pensava em preconceito, achava que tudo era o saber, oportunidade e amigo influente,
isso eu não tinha.
Entra o ano de 1970 e pouca sorte eu tive com emprego. Ano da
vitória da Seleção Brasileira de Futebol e o País todo em festa no mês de
Julho, nos rigores da Ditadura Militar. Resolvi ir para o Rio de Janeiro,
tentar uma nova vida, com emprego certo. No mesmo local em que trabalhava meu
irmão mais velho. Tudo corria bem, até que fui tentar o vestibular, passei. Só
que a Faculdade de Economia é na ilha do fundão no Rio de Janeiro e não havia o
ensino noturno, somente as faculdades particulares reservavam este direito.
Ficou difícil para me estudar, cancelei. Mais uma vez o sonho desfeito. O
trabalho falou mais auto.
Saí de Salvador com o coração triste e dolorido. Primeiro a
paixão por uma mulher que foi minha professora de Biologia, (um triste romance
cego) mais tarde vou escrever. Segundo, o apego aos familiares. Terceiro a
falta de trabalho, minou a esperança.
Trabalhei com afinco
para ser reconhecido como servidor assíduo na subsidiária do MEC. Morava em
pensão no centro do Rio, tinha minhas necessidades pessoais que não podia
resolver em imediato, ganhava pouco para viver. Fazia refeição uma vez por dia,
no trabalho. Pela manhã e a noite era média de café com pão. Pagava para lavar
e passar roupas, transportes e pouquíssimo sobrava para comprar roupa. Pesava
45kg com altura de 1,70 era um filho de “Biafa” nascido no Brasil no Estado da
Bahia. Com essas “qualidades” conheci uma colega, gostei, namorei e casei em
três meses. Uma loucura realizada para atender os reclamos das necessidades.
Unimos o útil ao agradável para durar um ano e três meses de casamento
voluntário. Não avaliamos os nossos sentimentos e a vaidade dela falou mais
alto no corpo feminino para esquecer os deveres matrimonias. Separamos os
corpos e os deveres, pedi demissão do emprego para não passar constrangimento.
Retornei a Salvador, triste, desolado e sem perspectiva para o futuro. Iniciei
tudo de novo para tentar ter uma vida melhor. Voltei a morar com minha mãe e
irmãs já que os irmãos estavam um no Rio e outro em São Paulo. Comecei a
trabalhar e dois ou três anos depois pedi o divórcio, aceito e promulgado por
Juiz do Rio de Janeiro. Não tive filho, foi mais fácil. A vida foi
transcorrendo sem as de revoltas e com muito namoro foi consumido.
Mas, já estava ficando maduro e experiente. No ano de 1977
precisamente no mês de maio sofri acidente de veículo, a Kombi em que eu estava
como carona, bateu em outro veículo e virou o lado justamente na posição em que
eu estava. O braço ficou embaixo do veículo e a Kombi foi arrastando no asfalto
por cinquenta metros. Quando parou, ao desvirar a Kombi, percebi a mutilação no
braço e principalmente na mão direita. O motorista nada sofreu, também era
funcionário da Empresa. Fui levado por uma ambulância da Polícia Rodoviária
Federal até o COT da rua do Canela. Foi Caracterizado como acidente de
trabalho. Vejamos o Lauro Médico: “ O Sr. Álvaro Bento Marques, foi atendido
nesta Clínica, em caráter de urgência, no dia 26.05.77, vitima de acidente de
veículo. Apresentando o seguinte diagnóstico: “Traumatismo crâneo encefálico.
Esmagamento de 1/3 distal do ante-braço direito com fraturas cominutivas
expostas do rádio e cúbito. Ossos do carpo e metacarpianos, lesão dos aparelhos
tendinosos flexor e extensor e do sistema vasculho-nervoso dos dedos, com perda
de substância cutânea e óssea. Ferida lacero contusa ao nível do 1/3 superior
do antebraço direito com perda de substância cutânea e muscular. Abrasão de
todo o antebraço direito. Feridas abrasivas de face, braço e ombro direito.”
“O paciente foi submetido a cirurgia nesta data, que constou
de osteossinteses múltiplas com fios de Kirchner, nervorragia de colaterais
digitais, reparação das feridas com enxertia precoce de pele e miorrafia da
musculatura do 1/3 superior do antebraço direito. Permaneceu internado nesta
Clinica realizando curativos em face de processo infeccioso em área de necrose,
sendo novamente operado nos dias 27.06.77, 11.07.77 e 22.07.77, quando foram
realizadas novas enxertias de pele. Em 02.08.77 obteve alta hospitalar,
permanecendo em tratamento ambulatorial até o dia 30 daquele mês, quando foi
encaminhado a tratamento fisioterápico, que consistiu em sessões de parafina,
cinesioterapia e corrente contínua. Em 03.03.78 o paciente obteve alta
definitivo, sendo portador de sequelas que determinaram uma redução da
capacidade funcional da mão direita de 90%. Assinado pelo médico-Diretor da Clínica
Cot Clinica Ortopédica Traumatológica.”
Mais um aspecto de deficiência no meu quadro tão difícil. Foi
um choque para quem não usava a mão esquerda
como a principal lado laborativa. A princípio tinha sempre alguém da família
para me ajudar em determinada ocasião. Outras situações haveria de ser eu mesmo
para ajeitar a roupa, pentear os cabelos, banho e higiene pessoal. E como seria para “bater a máquina” era um exímio datilógrafo. Passei a treinar a mão
esquerda em caligrafia e uso geral. Fiquei afastado do trabalho e quando tive
alta pelo INSS ao retornar para a Empresa não havia mais vaga. Meu lugar já
estava ocupado e não tinha lugar para deficiente. Com essas palavras amargas
ouvi da direção da Empresa. Retornei ao INSS para explicações e auxilio. Fui
atendido e a Empresa foi forçada a reademitir no período de um ano. Deram a função inadequada para a minha capacidade laborativa, almoxarife,
função incombatível com a minha situação funcional. Em menos de um ano pedi a
demissão, era isso que eles queriam. Mas, eu já dominava o lado esquerdo e fui
adaptando no cotidiano. Voltei a trabalhar em nova Empresa com função
laborativa e assim toquei a vida. Chega o ano de 1980 e novo matrimônio
realizei. Agora é construir família. Um filho nasceu quando eu estava iniciando
os passos como mico empresário no ramo de abatedor de frangos. Levei 3 anos
trabalhando de segunda a segunda, a coisa dava se eu tivesse capital de giro. O
ponto era de aluguel, despesas obrigatórias de manutenção, encargos sociais
elevados de empregada e retirada minha do pró-labore da subsistência. Fui roubado,
a sociedade com minha irmã foi a falência. A infração do ano estava a 1.000 e
mais um plano econômico. Voltei a trabalhar como funcionário de Empresa de
Alimentos e na falta acrescentei serviços na Construção Civil na parte
administrativa. O tempo de seis anos de casado deu-me outro filho que encerrou
a gestação da esposa. A vida prosseguia sem muito a contar para chegar na
aposentadoria indesejável. Nesta fase Deus reserva tudo que a mocidade não teve
para mostrar o quanto perdeu por não fazer ou se tentou fazer o que difícil
pensava. O corpo muda e aparece doenças imagináveis na justificativa de que é
peso da idade, a velhice chegou, a saúde está debilitada. O idoso não pede mais,
só carece menos na luta constante de viver. É um sedentário que no silêncio faz
acontecer as comparações. É uma volta de aceitar o carinho como se fosse
criança.
Sou septuagenário, convivo com algumas doenças por exemplo:
Tive câncer na próstata e ainda tenho consulta com oncologista. Perdi muitos
decibéis na audição, uso aparelhos. Mais acentuado no ouvido esquerdo, lesão no
nervo auditivo, motivo tapa no ouvido. Faz três anos que tenho “tremores
extremidades” o médico neurologista diz que não tenho característica nem de Parkinson
e nem Alzheimer ainda não definiu. Tenho em conta o glaucoma em tratamento. Convivo com rinite aguda vai e volta. Vasos
alterados nas pernas, varizes. Tenho cuidado para não ter trombose. Sou
diabete, controlado. Surgiu agora artrose é uma sina da degeneração
involuntária no idoso. Mudança na alimentação é o recomentado. Pouco faço de
controle na vontade de comer. Amo a vida em todas as espécies, escrevo muito
sobre a Mãe Natureza para não pensar no fim da vida.
Quando me aposentei
não queria parar de exercitar a mente e o corpo sempre em movimentos. Passei a
frequentar Bibliotecas, Arquivos e principalmente ler muito. Foi ai que cresceu
a vontade maior de escrever e valorizar os meus pensamentos. Tenho Blogs –
Bahiatextos -124 postagens
- QuadrodaVida - 15 postagens
- Textoshumanitários - 96 postagens.
- Caminhandocomaluz – 35 postagens.
- Textoseróticos – 12 postagens. (este abre se
quiser)
Ainda faltam muito
para escrever.
Faço uso das palavras para não sentir o hábito do
vazio no silêncio.
Álvaro B. Marques.
SSA, 17.01.2015
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