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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Gesto de Vida e Sobrevivência - Tibuto a Vida.


Minha autobiografia.

Tive uma infância difícil em leitura e memória. Fui alfabetizado com 6 ou 7 anos. Na época a Escola Pública só aceitava o aluno já sabendo a cartilha do ABC e eu demorei muito em assimilar o alfabeto, por ser uma criança medrosa, insegura e extremamente gago. Tinha o complexo de inferior ao saber. Mas, não era isso a causa certamente foi a pressão e castigos para aprender as primeiras letras.
Meu pai, homem enérgico e de pouca conversa. Teve a educação vindo do tempo da “palmatória” e castigo ajoelhado no milho, quando o aluno era relapso. Fez um quadro negro para qualquer pessoa ensinar-me o alfabeto até ele, quando tinha tempo. A mãe, sempre nos labores da cozinha, lavagem de roupas e limpeza da casa grande com quintal, não tinha tempo para isso, e com mais cinco filhos. Meus irmãos de mais idade tinham suas tarefas, mas sempre quando fossem chamados para esta finalidade, faziam arrelia. Eu não gostava e saía briga. Cabia a meu pai o direito reservado para mim com muita “porrada” e puxão de orelhas, quando eu via as letras do alfabeto no quadro negro a gagueira aumentava e fazia um bloqueio, não pronunciava as letras com exatidão. A cartilha era a minha companheira e assim aprendi a ler o alfabeto do nosso português arrastado em parada súbida. Ingressei na Escola Pública e conclui o primário relativo a cinco anos. Neste período eu tive muitos apelidos, “capanga podre”, “gaguinho”, “rádio quebrado”, “caveirinha” e outros. Já adolescente na fase dos 14 a 16 anos fui trabalhar. Aconselhado por pessoas outras não sendo da família, fui vender livros ambulante para forçar as palavras em pronunciamentos corretos e assim fui melhorando e corrigindo a gagueira. Só falava o principal e o preço final. Foi o bastante para conseguir novas oportunidades de trabalho e a vida caminhando. Fui aprender a datilografia na Associação Comercial da Bahia, na rua Chile. Conclui o curso e não obtive o Diploma por não ter o dinheiro para pagar. Neste mesmo período estudei  quadro anos de ginasial no Instituto Normal Isaías Alves. Lá encontrei grandes mestres e fatos que até hoje não esqueço. Quando a professora Candolina entrava na sala de aula, todos os alunos levantavam-se e diziam, Bom Dia!. Mais adiante, voltei a estudar quando ocorreram os chamados “artigos 99 e o artigo 101”. Na conclusão do “artigo 101”. Era o  científico ou clássico em 6 meses ou 1 ano. Ensino deficitário e de péssima qualidade. Tudo para diminuir o numero de analfabeto no Brasil.
Meus pais eram pobres e o melhor para eles na época era os filhos fossem trabalhar para se manter e estudar por conta própria. O sonho da faculdade foi se distanciando. O trabalho absorvia o maior tempo. Na época da infância para a adolescência foi quando tive o gosto para a leitura de gibis a livros de Monteiro Lobato e outros de História de Pedro Malazarte. Como também, passava os olhos em jornais e revistas, quando encontrava. Tive um amigo, chamado Bené, estudante de Direito, morava no apartamento com os pais que tinham uma biblioteca com centenas de livros catalogados em ordem alfabética com rigor. Eu sempre quando possível lá estava folheando os livros romances, crônicas, Histórias, Ciência, Matemáticas e muitos de Direito, o pai dele era também advogado, sentia-me no deleito com as leituras. Foi dessa forma que nasceu o interesse de escrever o meu pensar. Uma das primeiras escritas foi em 1966 “Canto Só” poema isolado. Depois vieram vários trabalhos com temas diversos ao passar dos anos. Apesar de ser medroso, inseguro e gago, carregava o estigma da cor que não ajudava a abrir novos horizontes. Mas não me preocupava com isso. Não pensava em preconceito, achava que tudo era o saber, oportunidade e amigo influente, isso eu não tinha.
Entra o ano de 1970 e pouca sorte eu tive com emprego. Ano da vitória da Seleção Brasileira de Futebol e o País todo em festa no mês de Julho, nos rigores da Ditadura Militar. Resolvi ir para o Rio de Janeiro, tentar uma nova vida, com emprego certo. No mesmo local em que trabalhava meu irmão mais velho. Tudo corria bem, até que fui tentar o vestibular, passei. Só que a Faculdade de Economia é na ilha do fundão no Rio de Janeiro e não havia o ensino noturno, somente as faculdades particulares reservavam este direito. Ficou difícil para me estudar, cancelei. Mais uma vez o sonho desfeito. O trabalho falou mais auto.
Saí de Salvador com o coração triste e dolorido. Primeiro a paixão por uma mulher que foi minha professora de Biologia, (um triste romance cego) mais tarde vou escrever. Segundo, o apego aos familiares. Terceiro a falta de trabalho, minou a esperança.
 Trabalhei com afinco para ser reconhecido como servidor assíduo na subsidiária do MEC. Morava em pensão no centro do Rio, tinha minhas necessidades pessoais que não podia resolver em imediato, ganhava pouco para viver. Fazia refeição uma vez por dia, no trabalho. Pela manhã e a noite era média de café com pão. Pagava para lavar e passar roupas, transportes e pouquíssimo sobrava para comprar roupa. Pesava 45kg com altura de 1,70 era um filho de “Biafa” nascido no Brasil no Estado da Bahia. Com essas “qualidades” conheci uma colega, gostei, namorei e casei em três meses. Uma loucura realizada para atender os reclamos das necessidades. Unimos o útil ao agradável para durar um ano e três meses de casamento voluntário. Não avaliamos os nossos sentimentos e a vaidade dela falou mais alto no corpo feminino para esquecer os deveres matrimonias. Separamos os corpos e os deveres, pedi demissão do emprego para não passar constrangimento. Retornei a Salvador, triste, desolado e sem perspectiva para o futuro. Iniciei tudo de novo para tentar ter uma vida melhor. Voltei a morar com minha mãe e irmãs já que os irmãos estavam um no Rio e outro em São Paulo. Comecei a trabalhar e dois ou três anos depois pedi o divórcio, aceito e promulgado por Juiz do Rio de Janeiro. Não tive filho, foi mais fácil. A vida foi transcorrendo sem as de revoltas e com muito namoro foi consumido.
Mas, já estava ficando maduro e experiente. No ano de 1977 precisamente no mês de maio sofri acidente de veículo, a Kombi em que eu estava como carona, bateu em outro veículo e virou o lado justamente na posição em que eu estava. O braço ficou embaixo do veículo e a Kombi foi arrastando no asfalto por cinquenta metros. Quando parou, ao desvirar a Kombi, percebi a mutilação no braço e principalmente na mão direita. O motorista nada sofreu, também era funcionário da Empresa. Fui levado por uma ambulância da Polícia Rodoviária Federal até o COT da rua do Canela. Foi Caracterizado como acidente de trabalho. Vejamos o Lauro Médico: “ O Sr. Álvaro Bento Marques, foi atendido nesta Clínica, em caráter de urgência, no dia 26.05.77, vitima de acidente de veículo. Apresentando o seguinte diagnóstico: “Traumatismo crâneo encefálico. Esmagamento de 1/3 distal do ante-braço direito com fraturas cominutivas expostas do rádio e cúbito. Ossos do carpo e metacarpianos, lesão dos aparelhos tendinosos flexor e extensor e do sistema vasculho-nervoso dos dedos, com perda de substância cutânea e óssea. Ferida lacero contusa ao nível do 1/3 superior do antebraço direito com perda de substância cutânea e muscular. Abrasão de todo o antebraço direito. Feridas abrasivas de face, braço e ombro direito.”
“O paciente foi submetido a cirurgia nesta data, que constou de osteossinteses múltiplas com fios de Kirchner, nervorragia de colaterais digitais, reparação das feridas com enxertia precoce de pele e miorrafia da musculatura do 1/3 superior do antebraço direito. Permaneceu internado nesta Clinica realizando curativos em face de processo infeccioso em área de necrose, sendo novamente operado nos dias 27.06.77, 11.07.77 e 22.07.77, quando foram realizadas novas enxertias de pele. Em 02.08.77 obteve alta hospitalar, permanecendo em tratamento ambulatorial até o dia 30 daquele mês, quando foi encaminhado a tratamento fisioterápico, que consistiu em sessões de parafina, cinesioterapia e corrente contínua. Em 03.03.78 o paciente obteve alta definitivo, sendo portador de sequelas que determinaram uma redução da capacidade funcional da mão direita de 90%. Assinado pelo médico-Diretor da Clínica Cot Clinica Ortopédica Traumatológica.”
Mais um aspecto de deficiência no meu quadro tão difícil. Foi um choque  para quem não usava a mão esquerda como a principal lado laborativa. A princípio tinha sempre alguém da família para me ajudar em determinada ocasião. Outras situações haveria de ser eu mesmo para ajeitar a roupa, pentear os cabelos, banho e higiene pessoal. E como seria para “bater a máquina” era um exímio datilógrafo. Passei a treinar a mão esquerda em caligrafia e uso geral. Fiquei afastado do trabalho e quando tive alta pelo INSS ao retornar para a Empresa não havia mais vaga. Meu lugar já estava ocupado e não tinha lugar para deficiente. Com essas palavras amargas ouvi da direção da Empresa. Retornei ao INSS para explicações e auxilio. Fui atendido e a Empresa foi forçada a reademitir no período de um ano. Deram a função inadequada para a minha capacidade laborativa, almoxarife, função incombatível com a minha situação funcional. Em menos de um ano pedi a demissão, era isso que eles queriam. Mas, eu já dominava o lado esquerdo e fui adaptando no cotidiano. Voltei a trabalhar em nova Empresa com função laborativa e assim toquei a vida. Chega o ano de 1980 e novo matrimônio realizei. Agora é construir família. Um filho nasceu quando eu estava iniciando os passos como mico empresário no ramo de abatedor de frangos. Levei 3 anos trabalhando de segunda a segunda, a coisa dava se eu tivesse capital de giro. O ponto era de aluguel, despesas obrigatórias de manutenção, encargos sociais elevados de empregada e retirada minha do pró-labore da subsistência. Fui roubado, a sociedade com minha irmã foi a falência. A infração do ano estava a 1.000 e mais um plano econômico. Voltei a trabalhar como funcionário de Empresa de Alimentos e na falta acrescentei serviços na Construção Civil na parte administrativa. O tempo de seis anos de casado deu-me outro filho que encerrou a gestação da esposa. A vida prosseguia sem muito a contar para chegar na aposentadoria indesejável. Nesta fase Deus reserva tudo que a mocidade não teve para mostrar o quanto perdeu por não fazer ou se tentou fazer o que difícil pensava. O corpo muda e aparece doenças imagináveis na justificativa de que é peso da idade, a velhice chegou, a saúde está debilitada. O idoso não pede mais, só carece menos na luta constante de viver. É um sedentário que no silêncio faz acontecer as comparações. É uma volta de aceitar o carinho como se fosse criança.
Sou septuagenário, convivo com algumas doenças por exemplo: Tive câncer na próstata e ainda tenho consulta com oncologista. Perdi muitos decibéis na audição, uso aparelhos. Mais acentuado no ouvido esquerdo, lesão no nervo auditivo, motivo tapa no ouvido. Faz três anos que tenho “tremores extremidades” o médico neurologista diz que não tenho característica nem de Parkinson e nem Alzheimer ainda não definiu. Tenho em conta o glaucoma em tratamento. Convivo com rinite aguda vai e volta. Vasos alterados nas pernas, varizes. Tenho cuidado para não ter trombose. Sou diabete, controlado. Surgiu agora artrose é uma sina da degeneração involuntária no idoso. Mudança na alimentação é o recomentado. Pouco faço de controle na vontade de comer. Amo a vida em todas as espécies, escrevo muito sobre a Mãe Natureza para não pensar no fim da vida.
Quando me aposentei não queria parar de exercitar a mente e o corpo sempre em movimentos. Passei a frequentar Bibliotecas, Arquivos e principalmente ler muito. Foi ai que cresceu a vontade maior de escrever e valorizar os meus pensamentos. Tenho Blogs – Bahiatextos -124 postagens
          - QuadrodaVida - 15 postagens
          - Textoshumanitários - 96 postagens.
          - Caminhandocomaluz – 35 postagens.
          - Textoseróticos – 12 postagens. (este abre se quiser)
Ainda faltam muito para escrever.

Faço uso das palavras para não sentir o hábito do vazio no silêncio.

Álvaro B. Marques.

SSA, 17.01.2015

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